Os Últimos Jedi | Crítica do filme COM SPOILERS

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Atenção: esta matéria está recheada de Spoilers. Se você ainda não viu o filme, não leia. Se você já viu, não compartilhe as informações abaixo nas suas redes sociais. Por favor, respeite a experiência do próximo!

Por Yan Caetano

George Lucas disse em algumas ocasiões que os filmes da saga Star Wars agiam como espelhos entre si. A Ameaça Fantasma tem semelhanças com Uma Nova Esperança, A Vingança dos Sith tem ligações com o sombrio de O Império Contra-Ataca e aspectos de O Retorno de Jedi. Até mesmo os títulos se assemelham: I, IV e VII apresentam uma chamada propositiva; II e V, uma ação; III e VI, um desfecho. Quando O Despertar da Força chegou aos cinemas em 2015, ficou clara sua proximidade com o primeiro filme de Star Wars, principalmente no desenvolvimento da trama. Era, entretanto, uma tentativa de reapresentar a saga para os novos fãs e resgatar os antigos. Por essa similaridade e pela linearidade da franquia, fãs e mídia especializada clamavam que Os Últimos Jedi seria uma espécie de O Império Contra-Ataca 2.0. Afinal de contas, estavam lá elementos já vistos como um mestre treinando uma aprendiz e um ataque da Primeira Ordem, tal como o Império. Ledo engano.

Diferente do seu antecessor, Os Últimos Jedi rompe tradições estabelecidas: seu título é diferente dos demais e sua trama foge do trivial da franquia. O filme até bebe na fonte do Episódio V, mas a sua forma de narrativa, de apresentação dos fatos e suas diversas reviravoltas o colocam em um nível separado. Melhor filme de Star Wars? Não, porém o mais original e autoral.

É nítida a presença do diretor Rian Johnson. Seja no roteiro bem dinâmico que apresenta os personagens de forma bem ágil e os encaixa corretamente onde cada um deve estar, seja no visual estonteante. É claro que Star Wars sempre buscou cenários físicos belíssimos, desde o seu primeiro episódio. A câmera de Rian, no entanto, captura esses cenários de uma forma ainda não vista na saga. A beleza do contraste entre o vermelho e o branco do solo de Crait, por exemplo, lembra cenas de Mad Max: a Estrada da Fúria. É incrível ver os speeders da Resistência lutando contra os novos AT-ATs da Primeira Ordem em meio a fumaça vermelha. A composição que vemos em cada frame realça a experiência, nos aproxima do universo da franquia. Sem dúvidas, é o filme mais bonito (visualmente falando) da saga. Também é um presente a imersão em novos mundos. Canto Bight, o planeta Cassino, é irreverente, vivo e deixa a sensação de que essa galáxia não é assim tão distante da nossa.

É a história de Os Últimos Jedi, escrita por Rian com base no elaborado pelo Departamento de Histórias da Lucasfilm, que mais distancia o episódio dos outros. É confortante, como fã, saber que o estúdio investe pesado na construção do cânone. É ainda mais confortante ver que a empresa se preocupa e faz a leitura de opiniões dos fãs. Em diálogos do filme, é possível identificar algumas reclamações do público a O Despertar da Força. O roteiro apresenta explicações e respostas a elas. No entanto, muito mais do que isso, é clara a construção do futuro, o sentimento da escalada para uma trajetória diferente da saga. Os Últimos Jedi tem pleno conhecimento dos filmes anteriores, sabe o que eles significaram e debate seus acontecimentos. Faz um aprofundamento das consequências de tudo o que aconteceu até aqui. É como se a saga estivesse no divã, sendo analisada por si própria.

A clássica dualidade entre o bem e o mal, core da história construída por George Lucas, sempre foi muito bem definida na franquia. Luke era o lado bom, Vader o lado ruim. O Império era o mal da galáxia, a Rebelião o bem. Em Os Últimos Jedi, essa dualidade é fluída, está em cheque, assim como seus grandes ícones. Em seus meios, a Resistência possui semelhanças com a Primeira Ordem? Os Jedi são mesmo o caminho certo? A forma de transmitir os ensinamentos da Força está correto? O que são o lado negro e o lado luminoso? Todos esses conflitos estão lá e o espectador é sugado para o debate, principalmente pela visão de Luke Skywalker. Em seu retorno triunfante, o personagem não é aquele herói que nos acostumamos na trilogia clássica, mas um homem afetado por seus temores, inseguranças e incredulidades. De certa forma, Luke ainda é um aprendiz que tenta, ao observar os acontecimentos desde a Velha República, entender porque o lado negro sempre surge no seio da luz. Ele aprende que mestres também erram e seus alunos podem ser definidos a partir dessas falhas. O personagem, no entanto, é tratado com toda a reverência e respeito que merece. Sem sombra de dúvidas, é a maior inserção do Skywalker filho nos cinemas. Mark Hamill, após anos sem viver o herói, faz a sua melhor atuação. Dramático, cínico, profundo, mas sem perder a bondade que Luke tinha em Tatooine quando Obi-Wan o levou para cumprir o seu destino. De encher os olhos.

O arco de Luke é redondo: o personagem é encontrado em Tatooine por Obi-Wan, aprende sobre sua família, se torna um Jedi, redime o seu pai das trevas, constrói uma Nova Ordem Jedi, falha com Ben Solo, se isola, aprende com seus erros. É a maior lição para um Mestre. Afinal, quem ensina não está sempre certo. Todos somos humanos. Luke aprende isso com os erros dos Jedi, que permitiram que Anakin Skywalker e Palpatine destruíssem a ordem e criassem o Império, e com os seus próprios. Por ter um treinamento diferenciado, digamos “supletivo”, Luke teve que entender certas coisas por si só. O homem que encontramos em Ahch-To é mais cauteloso, sábio e descrente. Ele sabe que Obi-Wan falhou com Anakin e criou Darth Vader, assim como ele falhou com Ben Solo e criou Kylo Ren. Quando encontramos Luke, ele está isolado para morrer, acreditando piamente que o caminho Jedi não é o certo. Mas, será que Luke aprendeu que existe o fator humano em tudo isso? No final, ele entende que o aprendiz cresce como um espelho do Mestre, herdando seus defeitos e erros. O encerramento de Luke é belíssimo, uma reverência ao personagem. Ele se mostra o mais poderoso da galáxia ao executar um poder que nenhum outro fez (Luke se projeta para outro planeta e confronta Kylo Ren), o que gera consequências para seu estado físico. Luke morre, se transforma em espírito da Força, em troca de um forte propósito: tentar salvar a alma do seu sobrinho.

Além de Luke, a dualidade fluída entre o bem e o mal perdura na relação de Rey e Kylo Ren.

O filho de Leia e Han, mais amadurecido e menos reclamão, tem conhecimento dos seus atos, mas ainda vive o conflito dentro de si. Kylo Ren é um destaque a parte. O jovem, que sempre se apoiou na figura do seu avô, se mostra mais poderoso em suas escolhas. Kylo tem plena ciência dos seus poderes e elimina Snoke quando percebe que esse iria controlar o seu futuro. É a materialização de um pensamento dos fãs: se Anakin era tão poderoso, porque ele permaneceu ajoelhado perante a Palpatine? Kylo não é dogmático e religioso como seu avô e usa os meios para alcançar os seus objetivos. Para ele, não importam os Jedi, os Sith e tudo que passou, apenas o que está por vir. Ele controla o seu destino e irá atropelar o que estiver em seu caminho. Snoke era um encalço e foi eliminado por isso. Alguns fãs vão reclamar da morte do líder da Primeira Ordem. No entanto, convenhamos: Snoke não era relevante para história, mas servia ao simples propósito de elevar o poder de Kylo Ren. E se você está cuspindo hate, convenhamos mais ainda: se Snoke foi perfurado por um sabre de luz, Palpatine foi segurado no colo e jogado no poço da Estrela da Morte. Achou a morte de Snoke fácil? A de Palpatine também foi.

O personagem de Adam Driver possui a ingrata missão de se assemelhar a Darth Vader. Isso não seria possível se Kylo permanecesse na coleira. Pela primeira vez, veremos um Skywalker das trevas pronto para dominar a galáxia, nas plenas funções físicas e psicológicas. Afinal, por não ter dogmas, Kylo não possui limites que travavam o poder de Darth Vader.

Rey já não tem mais o olhar inocente do Episódio VII e busca incessantemente entender o seu lugar no universo. Para os fãs, o maior mistério era descobrir quem eram os pais da jovem. Quando Kylo revela que ela é filha de dois escavadores que a entregaram em troca de dinheiro, descobrimos que Rey não vem de qualquer linhagem. E isso é ótimo! Ao tomar essa decisão, Os Últimos Jedi abre espaço para novas oportunidades e novos personagens. Afinal de contas, e que os fãs mais passionais nos perdoem, não é possível que em uma galáxia tão grande, apenas um família seja poderosa com a Força. Rey mostra que o dogma nem sempre é correto.

Os diálogos entre os Rey e Kylo ao longo do filme mostram que mesmo do lado luminoso pode existir algo sombrio, assim como o contrário. É como se os ensinamentos do antigo Conselho Jedi fossem postos em xeque: afinal, são os sentimentos, a ira, o sofrimento que podem levar alguém ao lado negro, ou a própria natureza humana? Todos nós temos trevas e luz dentro de si, não há escapatória.

Paralelamente ao trio protagonista, Leia tem o melhor desenvolvimento em toda a saga. Materna, sábia, líder, sensível. No quebra-cabeça entre luz e trevas, ela surge como um clarão que mostra que a luz pode vencer se as atitudes forem corretas, se o controle do interior existir.

Com essa análise interior, Os Últimos Jedi leva a franquia para um novo caminho. Um futuro que busca o novo, busca a reinvenção, sem deixar de contemplar o que passou. O passado nunca foi tão importante dentro de um episódio. O filme não se interessa em copiar o que passou, mas destrincha os fatos para que uma nova era comece. Mais do que nunca, trata-se de uma ponte entre gerações. O velho é totalmente certo? O novo é melhor ou também erra? O que é preciso aprender com o antigo para que o novo evolua?

Ao final do filme, um menino de Canto Bight puxa um objeto com a Força. É o sinal dos novos tempos, mostrado como nunca na saga. Se o foco sempre foi nos Skywalker, agora o leque está mais aberto. Qualquer um pode conter a Força. E esse é um dos principais pontos tratados por Os Últimos Jedi: a importância da concentração da Força nos núcleos. O filme abre novas possibilidades para os próximos anos. Afinal de contas, assim como aconteceu com Anakin – um escravo escondido no canto mais longínquo – a Força pode despertar forte em pessoas e seres espalhadas por toda a galáxia. É a passagem de bastão entre gerações que foi prometida em O Despertar da Força, mas que não aconteceu de fato. Com a morte de Luke, o filme deixa bem claro: Star Wars vai seguir outras direções.

Os personagens veteranos, como Finn, Poe, Hux e Snoke ganham novos contornos, cada um ao seu estilo. Poe talvez seja o personagem que mais precise de definição para o próximo episódio, mas tem seus bons momentos. BB-8 rouba a cena, novamente, assim como Chewbacca. C-3PO aparece com seus clássicos contornos de nervosismo. R2-D2, no entanto, merecia mais destaque. A presença de Yoda no filme é de fazer chorar. O mestre jedi retorna como marionete, assim como na trilogia clássica, e com a voz de Frank Oz. Diferente do ser emotivo, sério e preocupado que vimos nas Prequels, o lendário Jedi é engraçado e implicante como em O Império Contra-Ataca. Um deleite!

Os novos personagens são bons e muito bem encaixados na história. Rose é alegre, determinada, sensível e faz uma dupla perfeita com Finn. Almirante Holdo, personagem de Laura Dern, é firme e controversa. Benício Del Toro faz um show a parte. E os Porgs, ah os Porgs. Para quem achou que eles seriam adições inúteis, os bichinhos fofos arrancam boas risadas ao lado de Chewie.

A música de John Williams, como sempre, encanta. Além de novas adições, o mestre busca temas clássicos que já não ouvíamos há tempos. No que cerne a ação, o filme é impecável. Além do belo visual que já mencionamos, Os Últimos Jedi é o filme mais agitado da franquia. Ao contrário do que foi comentado nas primeiras impressões estrangeiras, o filme não é exageradamente cômico. As piadas estão inseridas nos momentos que devem acontecer e funcionam muito bem, no melhor estilo Star Wars.

Com tudo isso, Os Últimos Jedi entra para o hall dos melhores episódios da franquia. Não vamos fazer comparações e dizer que é o melhor, porque cada filme tem seu propósito, sua época. É o mais original e isso basta. Uma grandiosa obra de Star Wars que age por si própria, mas aumenta e aprofunda o universo estabelecido. Se você ainda tinha alguma dúvida quanto o futuro da saga, fique tranquilo. Ao que tudo indica, estamos em boas mãos.

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6 Comentários

  1. Cara sem palavras, fico feliz em saber que não fui apenas eu que tive essas impressões sobre o Filme.. Excelente Análise, e que Venha o EP IX.. #QueAForçaEstejaComVocê

  2. Excelente sua crítica!!

    Meu sentimento é o mesmo.

    Até entendo que o público tá torcendo o nariz para esse episódio, pois aconteceram coisas que ninguém estava esperando. Ou seja, ele sai da zona de conforto, te questiona, te desafia!

    Quando acabou o filme me veio um gosto amargo por conta da morte do Snoke (acreditava que ele deveria ser o verdadeiro vilão, tal como foi Palpatine) e da morte do Luke (fiquei indignado, por que ele deveria morrer?).

    Mas depois, refletindo melhor, vi que o Filme foi muito corajoso, pois tentou sair da mesmice! É uma nova história, e devemos nos abrir para o novo! Se queremos o antigo, então que fiquemos na trilogia original.

    Luke merecia ter seu ciclo encerrado de forma magnífica, e assim foi. Ele foi simplesmente genial, e por isso mereceu se unir a força, assim como aconteceu com Obi Wan, Yoda e Anakin. Seu encerramento foi glorioso, emocionante!

    Snoke cumpriu seu papel, e pelo seu perfil, seria muito cômodo ele ser o vilão principal… Sua morte fez com que Kylo Ren crescesse e mostrasse que pode ser mais temível que Darth Vader. Muitos reclamam que não falaram nada sobre Snoke, mas na trilogia original falaram sobre Palpatine? (Que era só o imperador)

    Quem assistiu Clone Wars, Rebels, e leu obras do universo expandido, tende a assimilar melhor alguns fatos expostos pelo filme.

    Penso que o filme foi brilhante, corajoso, e estou ansioso pelo desfecho! Um dos melhores!

  3. Perfeito Yan, foram as mesmas impressoes que tive. É um filme único e original. Faz a ponte do velho com o novo. Claramente um dos melhores da saga. Não dá para falar que ele é o melhor, mas é o mais original de toda a saga. O que dizer da batalha de sabre luz? Épico!

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